Pe Antonio Spadaro, SJ – Testemunhar significa, antes de tudo, viver uma vida ordinária alimentada pela fé em tudo: visão do mundo, escolhas, orientações, gostos e portanto, também o modo de comunicar, de construir amizades e relacionar-se fora e dentro da Rede.

Encontramos hoje no site da Canção Nova Notícias uma entrevista interessante com o o consultor do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais e também do Pontifício Conselho para a Cultura, Padre Antônio Spadaro, explica sua teoria sobre a Cyberteologia: como aprofundar-se na fé no mundo digital. Achamos pertinente e importante postar estar entrevista aqui, para que você fique por dentro de tudo que acontece no mundo da comunicação.

O que é a cyberteologia?

P. Antonio Spadaro: A internet está mudando o nosso modo de conhecer o mundo, de nos relacionarmos com as pessoas, de nos relacionarmos com a realidade. Está mudando o nosso modo de pensar. As recentes tecnologias digitais não são mais simples instrumentos completamente externos ao nosso corpo e à nossa mente, mas um “ambiente” no qual nós vivemos. Eis então a minha pergunta: a Rede não estará mudando talvez o nosso modo de pensar e de viver a fé? Eis a pergunta com a qual iniciei minha reflexão.

A cyberteologia, portanto, pode ser considerada como a inteligência da fé no tempo da rede, isto é, a reflexão sobre o pensamento da fé à luz da lógica da rede. Me refiro à reflexão que nasce da pergunta sobre o modo no qual a lógica da rede, com as suas potentes metáforas que trabalham sobre o imaginário e também sobre a inteligência, possa modelar a escuta e a leitura da Bíblia, o modo de compreender a Igreja e a comunhão eclesiástica, a Revelação, a liturgia, os sacramentos: os temas clássicos da teologia. Por exemplo, entre tantos, pode ser mais claro: como muda a busca de Deus nos tempos dos motores de busca?

Em particular, a Rede, a cultura do cyberespaço põem novos desafios para a nossa capacidade de formular e escutar uma linguagem simbólica que fale da possibilidade e dos sinais de transcendência na nossa vida. Jesus mesmo no anúncio do Reino soube utilizar os elementos da cultura e do ambiente do seu tempo: o rebanho, os campos, o banquete, as sementais e por aí vai. Hoje somos chamados a descobrir, também na cultura digital, símbolos e metáforas significativas para as pessoas, que possam servir de ajuda no falar do Reino de Deus ao homem contemporâneo.

A reflexão é mais que nunca importante, porque resulta fácil constatar como sempre mais a internet contribui na construção da identidade religiosa das pessoas. E se isso é verdadeiro no geral, o será sempre ainda mais para os mais jovens, os por assim dizer, “nativos digitais”.

A cyberteologia é, portanto, não uma reflexão sociológica sobre a religiosidade na internet, mas é fruto da fé que liberta por si mesmo um impulso conhecível em um tempo no qual a lógica da rede marca o modo de pensar, conhecer, comunicar, viver…

O senhor sempre fala de internet na prospectiva antropológica, como uma rede de relação, como uma resposta às necessidades mais profundas do homem  em relação à interação. Mas, a seu parecer, a mesma rede de interações não pode “empobrecer”  as verdadeiras relações, as tidas como “reais”? Como evitar que a rede se torne uma ameaça para as verdadeiras relações?

P. Antonio Spadaro: O aparecimento da internet foi, de fato, uma revolução tecnológica. Todavia o que exprime esta revolução? Onde estão as suas raízes? Pensando na internet é necessário não somente imaginar as prospectivas de futuro que oferece, mas considerar também os desejos e as expectativas que o homem sempre teve e as quais tenta responder, isto é: conexão, relação, comunicação e conhecimento.

E a rede é um espaço de experiência que sempre mais está se tornando parte integral, em maneira fluida, da vida cotidiana: é um novo contexto existencial. Portanto, a rede não é, um simples ‘instrumento’ de comunicação que se pode usar, mas se evoluiu em um espaço, um ambiente cultural, que determina um estilo de pensamento e cria novos territórios e novas formas de educação, contribuindo para definir também um modo novo de estimular as inteligências e a estreitar as relações, um modo de habitar o mundo e organizá-lo. Não é, portanto, um ambiente separado da vida ordinária, mas ao contrario, sempre mais integrado, conectado com aquele da vida cotidiana.

De fato, um dos desafios maiores, especialmente para aqueles que não são “nativos digitais”, é aquela de não ver na rede uma realidade paralela, isto é, separada em relação à vida de todos os dias, mas um espaço antropológico interconectado em raiz com outros da nossa vida. Ao invés de fazer-nos sair do nosso mundo para escavar o mundo virtual, a tecnologia fez entrar o mundo digital dentro do nosso mundo ordinário. Os meios digitais não são portas de saída da realidade, mas extensões capazes de enriquecer a nossa capacidade de viver as relações e trocar informações.

Portanto, o verdadeiro desafio de hoje é aquele de viver a Rede como um dos ambientes de vida. Não “usar bem” a Rede, mas “viver bem” nos tempos da Rede.

Qual o papel que os cristãos devem assumir quando o assunto é “social network” (rede social)? A evangelização na rede deve ser sempre direta ou existem estratégias que devem ser usadas para que se fale do Evangelho sem referências claras? 

P. Antonio Spadaro: A lógica dos social networks (Facebook, Twitter,…) nos faz compreender melhor que antes, que o conteúdo partilhado é sempre estreitamente ligado à pessoa que o oferece. Não existe, de fato, nessas redes nenhuma informação “neutra”: o homem está sempre envolvido com aquilo que comunica. Cada um é chamado a assumir as próprias responsabilidades e o  próprio papel no conhecimento. Neste sentido, o cristão que vive imerso nas redes sociais é chamado a uma autenticidade de vida multo empenhativa: essa toca diretamente o valor de sua capacidade de comunicação. Quando as pessoas trocam informações, estão já dividindo si mesmas: isto é, aquilo que creem, as suas esperanças, os seus temores, as suas fraquezas, os seus ideais….

A tecnologia da informação, contribuindo em criar uma rede de conexões, portanto, parece ligar mais estreitamente amizade e conhecimento, conduzindo os homens a fazerem-se testemunhas daquilo sobre o qual fundam a própria existência. O testemunho está se tornando a verdadeira prova privilegiada de comunicação no ambiente digital. Um anúncio do Evangelho que não passe pela autenticidade de uma vida cotidiana pessoal partilhada ficaria, hoje mais que nunca uma mensagem expressa em um código compreensível talvez com a mente, mas não com o coração. A fé, portanto, não somente transmite, mas sobretudo pode ser suscitada no encontro pessoal, nas relações autênticas.

Testemunhar, portanto, não significa somente inserir  conteúdos declaradamente religiosos nos social network. Testemunhar significa, antes de tudo, viver uma vida ordinária alimentada pela fé em tudo: visão do mundo, escolhas, orientações, gostos e portanto, também o modo de comunicar, de construir amizades e relacionar-se fora e dentro da Rede. E de consequência também, como escreveu o Papa na Mensagem para a Jornada Mundial das Comunicações de 2012, “testemunhar com coerência, no próprio profile digital e no modo de comunicar, escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, também quando dele não se fala de forma explícita”. O anúncio, portanto, não deve nunca cair nas malhas da propaganda, mas deve ser testemunho ordinário, vital, não ideológico.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano, o Papa falou sobre o silêncio que precede a comunicação. Como viver esse “silêncio” no mundo da rede, “lugar” no qual tudo é feito velozmente, onde cada segundo é capaz de portar uma nova informação? É um desafio? 

P. Antonio Spadaro: É um grande desafio, certamente. Frequentemente, quando se fala de meios, se diz, de forma automática, que eles fazem “barulho”, gerando um rumor do qual se faz necessário reparar-se, retirando-se. Bento XVI, já pelo título da sua mensagem afirma que o silêncio e a palavra fazem parte de um único caminho, cobrindo a prospectiva e propondo um modo diferente de ver as coisas e de ler o significado do silêncio e da palavra. Isso me parece, de fato, o primeiro núcleo central da Mensagem do Pontífice: o silêncio é parte integrante da comunicação, parte da capacidade do homem de falar, e não o seu oposto. Os discursos do silêncio por si só, além do tecido comunicativo, correm o risco de tornarem-se um discurso da mudez, do isolamento, da autossuficiência. Silêncio e Palavra são, de fato, parte de um ambiente comunicativo que têm seus equilíbrios os quais devem ser respeitados para serem virtuosos. Neste sentido, o silêncio permite à palavra tornar-se, verdadeiramente, um lugar de experiência e de encontro, além do mecanismo da “informatio overload”.

Uma outra passagem chave da Mensagem do Pontífice consiste em considerar o fato que o homem  exprime dentro da rede a sua necessidade de silêncio e de oração. Em tal modo cai o prejuízo difundido que consiste em acreditar que na Rede exista somente “barulho”. O Papa, ao contrário, nota que se deve considerar com interesses de várias formas os “sites, aplicações e redes sociais” que podem ajudar o homem de hoje a viver momentos de reflexão e também ocasiões para a oração. Em particular, sem citar nenhuma plataforma ou aplicação particular, o Papa afirma que “na essencialidade das breves mensagens, às vezes não maiores que um versículo bíblico, se podem exprimir pensamentos profundos”. Vem espontaneamente o twitter, certamente. O Pontífice, aqui, mais no geral, quer ligar os novos fenômenos à sabedoria que a reflexão religiosa que  tem acompanhado por séculos o homem ocidental nesta sua necessidade de sabedoria essencial e estreitamente concisa. Dos dizeres dos padres do deserto às iniciativas que periodicamente alcançam um versículo evangélico para concentrar a atenção do cristão sobre todo o Evangelho, mas a partir de um ponto preciso.

A Mensagem do Papa, portanto, ajuda os cristãos a reapropriarem-se de uma tradição de sabedoria essencial profunda, que caracteriza a sua fé e a sua devoção, nos tempos de twitter, mas também daquelas que foram d definidas “aplicações do espírito”, como Other 6, o social network que partilha com seus inscritos o lugar no qual encontram Deus durante o dia, o lugar no qual teriam a necessidade de reconhecê-lo. Ou mesmo Prayer Wall que partilha intenções de oração, ou também 3 minutes retreat que permite fazer uma pausa espiritual de poucos minutos graças à música, imagens, palavra de Deus. Além disso, existem os sites Sacredspace.ie e o podcast Prayerstatio Portable ou Pray as you go. O elenco seria longo. O Pontífice reconhece o fenômeno e o valoriza com atenção, chamando para a importância de cultivar a própria vida interior não esporadicamente, mas com continuidade.

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